A volta do Lacerdismo – uma reflexão sobre a eleição de 2014
Durante as décadas de 1950 e 1960 a figura política de Carlos Lacerda despontou no parlamento e na imprensa. Político carioca da UDN, fez do discurso moral sua principal bandeira política. As denúncias de corrupção eram seu principal prato. Era uma verdadeira metralhadora de denúncias, muitas produtos de simples boatos que, mesmo depois de desmentidas, já tinham feito seu estrago político. Este discurso tinha um especial apelo envolvente nos setores médios urbanos. Lembrei de Lacerda e da UDN depois de assistir as falas de Aécio e dos tucanos em geral. Baseiam-se na noção de que a corrupção é o pior problema do país. Contam com isto com o arsenal da Veja, da Folha, do Globo, Estadão e outros meios de comunicação. Pois ouso em arriscar que embora seja um problema sério e crônico no país, não acho que a corrupção seja o maior problema nosso. O nosso principal problema é a desigualdade social, a marginalização, o preconceito, a exclusão e a falta de oportunidades reais para grande parte da população. A corrupção é assunto para uma pauta policial e de controle por órgãos de fiscalização, não pode virar uma panaceia, como uma espada a ser manejada pelo político que veste-se como “Justiceiro”, como Lacerda, Jânio, Collor e outros. Então, o que temos hoje é um debate político rebaixado, pautado por vazamentos de “delações premiadas” que são usadas a conta-gotas. Qual será a próxima capa da Veja? O Lacerdismo não é monopólio dos tucanos. Há candidatos de esquerda, como a Luciana Genro, que sucumbiu ao discurso pautado pela moralidade de mídia. Acho um grande equívoco a afirmação dela de que os três candidatos (Marina, Aécio e Dilma) eram iguais. Não são. Até em termos quantitativos a roubalheira e a impunidade entre os tucanos foi maior. Mas o pior dos tucanos não foi sua roubalheira, foi o que fizeram legalmente, como as privatizações dos setores elétrico, siderúrgico e telefônico. É hora de se acordar para a política para se debater projetos. Por outro lado, Dilma e o PT tem deprimido a pauta mais histórica da esquerda (como a reforma agrária, tributação das grandes fortunas, ataque aos monopólios) e caído num discurso e projeto “desenvolvimentista” (outra peça dos anos 1950\60). Mas pelo menos o projeto do PT é ainda voltado à atenção de grandes camadas da população. Enfim, se é para escolher entre “Lacerdismo” e “desenvolvimentismo”, não há dúvida que o segundo é mais inclusivo.