Paulo Pinheiro Machado
  • Chamada de Trabalhos para o IX Simpósio Internacional do Contestado

         O Grupo de Investigação sobre o Movimento do Contestado (GIMC) anuncia o IX Simpósio Internacional do Contestado, a ser realizado entre os dias 24 e 27 de novembro de 2026, na Universidade Estadual do Paraná, campus União da Vitória (UNESPAR). A nova edição do Simpósio propõe uma análise das camadas de significado que perduram e ressoam desde o conflito de 1912-1916, definindo como eixo estruturante o tripé trauma, memória e patrimônio. O evento busca lançar luz sobre passado e presente, destacando como o Movimento do Contestado ainda constitui uma chave fundamental para compreender questões atuais como a luta pela terra, o racismo ambiental e religioso, os usos políticos da história e a construção de identidades no sul do Brasil e na América Latina.
    Nas últimas décadas, a renovação dos estudos sobre o Contestado trouxe à luz abordagens que sublinham a agência e o protagonismo dos grupos subalternizados. Essa renovação demonstrou que o conflito não pode ser reduzido a uma mera disputa de limites ou a um levante messiânico. Ao contrário, o Contestado caracterizou-se pela profunda complexidade, onde se interconectaram a expropriação violenta de terras, a imposição de um modelo de “progresso” e desenvolvimento excludente, a repressão militar desproporcional e, principalmente, a construção, por parte das populações caboclas, indígenas e negras, de um mundo de resistência, fé e sonho de justiça social.
    O evento estrutura-se em uma perspectiva interdisciplinar, viabilizando a integração de contribuições de áreas como História, Antropologia, Arqueologia, Artes, Ciências Sociais, Direito, Geografia, Filosofia, dentre outras afins, enriquecendo e consolidando o debate sobre as múltiplas dimensões do Contestado e suas reverberações no tempo presente.
    A programação do IX Simpósio estrutura-se em conferências, minicursos, mesas redondas, simpósios temáticos e atividades de campo, articulando a participação de pesquisadores acadêmicos, estudantes (de graduação e pós-graduação), lideranças de movimentos sociais, professores da rede básica de ensino, pesquisadoras/es populares e comunidade em geral. As atividades presenciais ocorrerão no campus da UNESPAR e no Cine Teatro Luz, em União da Vitória, enquanto as atividades remotas serão transmitidas por plataforma digital, cujo acesso será oportunamente divulgado.
    Entre as atividades previstas, destacam-se: mesa de lideranças com representantes de comunidades quilombolas e indígenas em luta por seus territórios; saídas a campo para percursos de memória por locais sagrados e sítios históricos do conflito; atividades voltadas à formação continuada de professores da educação básica, com ênfase na produção de materiais didáticos e práticas pedagógicas alinhadas às leis 10.639/2003 e 11.645/2008; e eventos culturais que valorizam as manifestações artísticas e religiosas das populações tradicionais da região, além de exposições artísticas e fotográficas sobre o Contestado.

         O evento será realizado em formato híbrido, com sessões exclusivamente presenciais e outras exclusivamente remotas, visando ampliar a participação de diferentes públicos e garantir a acessibilidade.

    CRONOGRAMA

    Atividade

    Período

    Lançamento do IX Simpósio

    Agosto de 2026

    Submissão de trabalhos

    01/09/2026 até 21/09/2026

    Análise dos trabalhos inscritos

    22/09/2026 até 05/10/2026

    Divulgação dos aceites

    06/10/2026

    Divulgação da programação completa

    25/10/2026

    Encerramento das inscrições para ouvintes

    15/11/2026

    Divulgação dos links para apresentações remotas

    15/11/2026

    Realização do IX Simpósio Internacional do Contestado

    24/11/2026 a 27/11/2026

    Mais detalhes, com templates para inscrições e outras informações:

    https://www.even3.com.br/ix-simposio-internacional-do-contestado-779542/?utm_id=97758_v0_s00_e0_tv4_a1demoo3icyse2&fbclid=IwY2xjawUVEARwZG9mBWV4dG4DYWVtAjEwAGJyaWQRMW9JYVA5aVJRY2dSclV1U2RzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEeumycD8IyjpzWd69Vt3o1auenDCgAW294vRxy_BP_80r9AbiRgtx1_36gkhk_aem_YsFaF-px6BjIuPEJuAw1aQ

     

     


  • Tópicos Especiais – A Guerra Sertaneja do Contestado

    No semestre 2026/2 lecionarei, para o curso de graduação em História da UFSC , a disciplina Tópicos Especiais – A Guerra Sertaneja do Contestado. Funcionará nas terças pela manhã (das 8:20 às 11:50h). Coloco abaixo o cronograma de atividades:

    11\08- Apresentação do Plano de Ensino e do funcionamento da disciplina. Aula expositiva: o Contestado na história brasileira: marginalização e peculiaridades. As Fontes sobre a história da Guerra do Contestado.

    18\08- Aula expositiva: O despovoamento e repovoamento do Planalto Meridional.  Os Aldeamentos, as Colônias Militares e o tropeirismo.

    25\08 –  ANPUH – SC – Encontro Estadual de História – Chapecó, UFFS

    01/09 – Aula expositiva: a questão de limites entre Paraná e Santa Catarina.  Seminário de discussão do texto 1. de Eloi Muchalovski “Demétrio Ramos, o caudilho do Timbó: relações de poder e narrativas acerca de um personagem do Contestado” In Aedos, Vol. 12, n. 27, mar 2021, pp. 564-585.

    08\09 – Aula expositiva: A tradição de São João Maria. Peripécias de Agostini no Rio Grande do Sul e no Planalto. João Maria na Guerra Federalista. Exibição e debate do filme 1“A Maravilha do século” de Márcia Paraíso e Ralf Tambke;

    15\09- Seminário de discussão do texto 2 de Paulo Pinheiro Machado “O conflito do Canudinho de Lages” In Revista de Sociologia. São Paulo. Vol 13, n. 24, 2008. Aula expositiva sobre o movimento dos monges do Pinheirinho (1902).

    22\09- Aula expositiva: O Coronelismo no planalto. Estrutura do poder e as oligarquias em Santa Catarina. A administração honorária. A questão de limites, impasses e conflitos de jurisdição.

    29\09- Aula expositiva: A modernização do planalto. A chegada da Southern Brazil Railway e da Lumber and Colonization Company e seus impactos na região. A relação da ferrovia com o território. A grilagem de terras e a expulsão de posseiros. Exibição e debate do filme 2 “A Guerra dos Pelados” de Sylvio Back;

    06\10- Aula expositiva: As peripécias de José Maria e as concentrações de Taquaruçu e Irani. O combate do Irani e a dispersão dos sertanejos. Os sonhos de Teodora e a formação da Cidade Santa de Taquaruçu; Seminário de discussão do texto 3 de Maurício Vinhas de Queiroz “José Maria, o Messias Caboclo” IN Messianismo e Conflito social: a Guerra Sertaneja do Contestado (1912-1916). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. pp. 79-107.

    13/10- Envio de súmulas dos grupos de audiovisuais com a escolha do tema, um resumo e bibliografia.

    13\10. Aula expositiva: A destruição de Taquaruçu e a formação de Caraguatá. Ascenção de Maria Rosa. A campanha do Marechal Mesquita e a atuação do Capitão Matos Costa. Seminário de discussão do texto 4 de Rogério Rosa Rodrigues “Imagens cruzadas: exército e sertão na Primeira República” In História, Ciência e Saúde. Manguinhos. Rio de Janeiro. v.19, n.4, out.-dez. 2012, p.1301-1317.

    20\10- Aula expositiva: A ofensiva rebelde generalizada e a radicalização do conflito no segundo semestre de 1914. A ascensão de Adeodato e a formação do reduto de Santa Maria. A destruição de Santa Maria e os redutos remanescentes de Pedra Branca, São Miguel e São Pedro. A fase do “Açougue”. Destituição do Cel Albuquerque. As rendições. O Acordo de Limites entre Paraná e Santa Catarina. Movimentos do Pós-Contestado;

    27\10Aula expositiva: O Contestado nas Relações Internacionais. A historiografia do Contestado: fases, autores e abordagens;

    03\11 – Exibição e debate do Filme 3Contestado, a Guerra desconhecidaIrani Produções. FCC, 1984.;

    10\11.  Exibição e debate do filme 4 “Contestado: Restos Mortais” de Sylvio Back.

    17\11 – Exibição e debate sobre o filme 5Terra Caboclade Márcia Paraíso e Ralf Tambke

    24\11- Aula de assessoramento dos grupos de audiovisuais;

    01\12- Apresentação dos grupos de audiovisuais;


  • Nota de Protesto e Advertência

           O Grupo de Investigação sobre o Movimento do Contestado (GIMC), devidamente cadastrado no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq, composto por 18 pesquisadores e 45 estudantes de Graduação e Pós-Graduação de 12 instituições de 4 Estados da Federação, vem a público protestar contra a Ação de Despejo ajuizada em face da Retomada Indígena Jug Óg Pãn Txi, localizada no interior da Floresta Nacional de Três Barras, em Santa Catarina, protagonizada por famílias Laklãnõ-Xokleng e Kaingang. A ação foi deferida pela Justiça Federal, por meio da Vara Federal de Jaraguá do Sul, e confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), com sede em Porto Alegre.
    A retomada foi iniciada em maio de 2024 em território considerado tradicional e sagrado pelos povos envolvidos. Estudos recentes de historiadores e antropólogos corroboram essas demandas das populações indígenas, já que diversas pesquisas têm demonstrado que esses povos são os ocupantes originais deste território, tendo sido expropriados por pecuaristas e grileiros durante o século XIX e, no início do século XX, pela empresa ferroviária Brazil Railway Company, que adquiriu a concessão para a conclusão do trecho sul da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, bem como de extensas terras públicas transferidas à sua empresa subsidiária, a Brazil Lumber and Colonization Company. A população indígena foi dispersa pelos sertões do planalto catarinense, parte se concentrou na reserva de José Boiteux, enquanto outros se integraram à população nacional como caboclos, sitiantes e ervateiros, os quais foram igualmente expropriados por fazendeiros e pelas empresas norte-americanas, além de ser alvo da repressão ocorrida durante a Guerra do Contestado (1912-1916).
    A situação revela-se mais grave quando se analisa o processo de perto. A autoria da ação de despejo é de iniciativa do ICMBio, órgão federal vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, responsável pela administração da Floresta Nacional de Três Barras. Importante lembrar que metade desta floresta é constituída por reflorestamento de pinus, espécie exótica, mas que pode ser abatida resultando em grandes rendimentos. Os indígenas reivindicam apenas terra para morar e trabalhar e a recuperação de uma pequena parcela de seu território tradicional histórico.
    Advertimos que a remoção forçada desta população, com o acionamento de forças policiais de três corporações (Polícia Militar de SC, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal), como prevê a sentença
    judicial, pode resultar em lesões corporais e vítimas fatais, o que é um absurdo para qualquer patamar civilizatório de uma sociedade que se considera democrática. É inconcebível que a proteção ambiental seja empregada para a expulsão de populações indígenas de seus territórios tradicionais.
    Nosso protesto e advertência têm como finalidade alertar os meios universitários e a sociedade brasileira em geral, para que as autoridades públicas evitem o ato de violência que representa esta ação de despejo e negociem com os indígenas formas de conciliação dos interesses ambientais com os direitos territoriais indígenas, assegurados pela Constituição Federal.

    Florianópolis, 17 de junho de 2026.
    A Coordenação do GIMC
    Grupo de Investigação sobre o Movimento do Contestado
    https://gimc.com.br/contestado-hoje/

     


  • Disciplina Campesinato e História Global – semestre 2026/1

    Disciplina código HST 510093

    Prof.: Paulo Pinheiro Machado – PPGHST/UFSC  – será nas quintas, das 18:30 às 22h

    Cronograma de leituras:

    Bloco I – Campesinato como problema teórico e historiográfico:

    Aula 1 (12 de março): Apresentação do Plano de Ensino e distribuição das leituras.

    Aula 2 (19 de março):   CHAYANOV, Alexandr V. “Teoria dos sistemas econômicos não capitalistas (1924)”, in CARVALHO, Horácio Martins (org.) Chayanov e o campesinato. São Paulo: Expressão Popular, 2014. p. 99-137;

    SHANIN, Teodor. A definição de camponês: conceituações e desconceituações. O velho e o novo em uma discussão marxista. Revista Nera, v. 8, n. 7, p. 1-21, 2005;

    Aula 3 (26 de março):  CONGOST, Rosa. “Sagrada Propiedad Imperfecta: otra visión de la Revolución Liberal Española” História Agraria (SEHA), n. 20, abril de 2000, pp. 61-93;

    SCOTT, James. Formas cotidianas da resistência camponesa. Raízes, v. 21, n. 1, p. 10-31, 2002.

    Bloco II – Campesinato e escravidão:

    Aula 4 (9 de abril): CARDOSO, Ciro F. S. “A brecha camponesa no Brasil: realidade, interpretações e polêmicas” IN CARDOSO, C. F. S. Escravo ou Camponês?: o proto-campesinato negro nas Américas. São Paulo: Brasiliense, 1987.

    Aula 5 (16 de abril): SCHWARTZ, Stuart. Cap 2. “Trabalho e Cultura: a vida nos engenhos e vida dos escravos” In Escravos, roceiros e rebeldes. Bauru: EdUSC, 2001. Pp. 89 a 121.

    Aula 6 (23 de abril): FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da liberdade: história de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). Campinas: Editora da Unicamp, 2006. (parte 1, Capítulos 1, 2 e 3)

    Aula 7 (30 de abril): FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da liberdade: história de escravos e libertos na Bahia (1870-1910). Campinas: Editora da Unicamp, 2006. (parte 2, Capítulos 4, 5 e 6)

    Aula 8 (7 de maio): GONZÁLEZ, Raymundo. De esclavos a campesinos, vida rural en Santo Domingo colonial. Santo Domingo: Archivo General de la Nación AGN, 2011. (partes I e II) pp 15-70.

    Bloco III Campesinato e Cultura Política:

    Aula 9 (14 de maio). ANDERSON, Kevin B. “Escritos tardios sobre sociedades não ocidentais e pré-capitalistas” IN Marx nas margens. Nacionalismo, etnia e sociedades não ocidentais. São Paulo: Boitempo, 2019. pp. 291-345.

    Aula 10 (21 de maio): GRAMSCI, Antonio. Vozes da Terra: escritos de 1916 a 1926. São Paulo: Boitempo, 2023. pp 31-90.

    Aula 11 (28 de maio): MARTINO, Ernesto e FEIXA, Carles. El folclore progresivo y otros ensayos. Barcelona: Museu d’Art Contemporani/Universidad Autonoma de Barcelona, 2008. Caps 1, 3 e 4. pp. 13-66 e 77-110.

    Bloco IV Campesinato e Capitalismo:

    Aula 12 (11 de junho): MCMICHAEL, Philip. Peasants Make Their Own History, but Not Just as They Please… Journal of Agrarian Change, v. 8 n. 2-3, p. 205–228, 2008.

    VANHAUTE, Eric. “Peasants and depeasantization”, in: S. Babones and C. Chase-Dunn (eds), Routledge International Handbook of World-Systems Analysis, Routledge, 2012, p. 313-321.

    Aula 13 (18 de junho): SAUL, John S. African peasants and revolution. Review of African Political Economy, v. 1, p. 41–68, 1974.

    BERNSTEIN, Henry. African peasants and revolution revisited. Review of African Political Economy, n. 41, v. 1, p. 95-107, 2014.

    Bloco V – Campesinato brasileiro contemporâneo:

    Aula 14 (25 de junho): WANDERLEY, Maria de Nazareth Baudel. “A emergência de uma nova ruralidade nas sociedades modernas avançadas – o ‘rural’ como espaço singular e ator coletivo.” In Estudos, Sociedade e Agricultura. N. 15, out. 2000, pp. 87-145;

    Aula 15 (02 de julho): OLIVEIRA, Mariana Esteves de”’Muito ciosa do direito à propriedade’: vigilância e silenciamento em um caso de desapropriação para a reforma agrária na ditadura militar brasileira” In Fronteiras: Revista de História, Dourados, V. 27, n. 49, 2026, pp. 146-177.


  • Discurso aos Formandos em Licenciatura e Bacharelado em História da UFSC 2025/1

    Queridas formandas, queridos formandos:

    Em primeiro lugar quero agradecer pela deferência e gentileza do convite para Paraninfo de turma, sinto-me muito honrado e feliz com este gesto.

    Hoje é dia de congratulação por vocês terem cumprido uma longa trajetória de estudos para a formação como historiadores. A educação não é apenas transmissão de conhecimentos, é uma capacidade imponderável de interagir com o mundo e com as pessoas que nos proporciona alegrias e satisfações. Na condição de Bacharéis e Licenciados em História vocês possuem condições para pesquisar e lecionar os conhecimentos adquiridos.

    Com frequência nos perguntamos no íntimo: será que sou um profissional pronto?

    Saibam que historiadores com décadas de trabalho também se fazem a mesma questão. A rigor, nunca estamos prontos, pois sempre há algo a aprender no vasto campo de nossa atuação e na riqueza de nossa ciência e arte, que vive em renovação. Mas vocês já dispõem das ferramentas para caminhar por conta própria e construir seus caminhos profissionais. Para os que não forem trabalhar com a História, estou certo de que esta formação sempre será importante para sua vida, independente do destino. De qualquer maneira, sempre tenham a UFSC como sua casa, retornem para cá, participem de nossos eventos, da atividade dos Laboratórios de pesquisa e da pós-graduação.

    Não somos repositórios de coisas passadas, tal como um antiquário de datas e nomes, somos profissionais que pesquisam o passado para melhor compreender o presente. Nosso campo de conhecimento tem a capacidade de construir constante aumento da inteligibilidade da ação humana no mundo. A cada geração, fontes revelam novas respostas, tendo em vista a constante mobilidade de preocupações e as novas perguntas. Conhecer bem o presente só é possível com a História, assim como só podemos conhecer a História questionando nosso presente. Como dizia o historiador Marc Bloch, a mútua inteligibilidade entre passado e presente faz parte de nossa formação e nossa vida profissional.

    Nos últimos anos nunca foi tão necessário argumentar pela relevância e a utilidade da História como área de conhecimento fundamental para a cidadania, a democracia e a luta por uma vida melhor. Infelizmente a História ganhou relevância pelos lamentáveis ataques e crimes desferidos contra a democracia. Passamos por um terrível período de perseguição à ciência, a memória e à Universidade. Não podemos considerar esta situação superada, tendo em vista a força política alcançada por admiradores e simpatizantes do nazifascismo entre parte das forças políticas e contingentes da população. A negação do passado é ponto de partida para quem deseja que as coisas continuem exatamente como estão. Nos perguntamos: Como chegamos a este ponto? Como pode alguém negar o Golpe Militar de 1964 e os 21 anos de crimes da Ditadura? O negacionismo histórico vai muito mais fundo: negaram os quase 400 anos de escravidão africana e o genocídio dos povos indígenas. O negacionismo não é apenas uma atitude de ignorância inocente. Ele é base para a manutenção de políticas de privilégio aos de sempre, o negacionismo é um patamar para a reprodução de injustiças e para que se renovem várias formas de opressão e a exclusão de milhões.

    Há uma campanha orquestrada de forças políticas de extrema direita contra o trabalho de historiadores. O movimento “Escola Sem Partido”, a criação de escolas militarizadas construídas sem critérios,  e os constantes assédios que os educadores são expostos, se somam às iniciativas de Estados e Municípios que procuram reduzir a carga horária da História e demais ciências humanas, tentando introduzir o emprego de plataformas negacionistas como o “Brasil Paralelo” (plataforma esta que propaga o bordão: Esqueça o que falou seu professor de História, num ataque a toda a profissão, independente das diferentes vertentes teórico e metodológicas que existem.  Querem reduzir e pasteurizar o ensino de História, até o transformar em irrelevante. Portanto, ser Historiadora ou Historiador representa correr riscos, pois não vivemos numa sociedade sem controvérsias e lutas.

    Aqui em nossa casa, a UFSC, também tivemos tarefas a cumprir, como deveres de memória. Nossa Instituição, como outras Universidades brasileiras, foi alvo da ação por parte de órgãos de informação e espionagem, durante a Ditadura Militar. Professores, técnicos e estudantes foram perseguidos. Em muitos momentos, os órgãos de repressão contaram com a covarde colaboração de autoridades acadêmicas para perseguir, prender e torturar. Determinados indivíduos, delataram colegas e colaboraram abertamente para o arbítrio da Ditadura e para o silenciamento e perseguição da comunidade universitária. A UFSC formou uma Comissão da Memória e Verdade que pesquisou e levantou estes abusos e ilegalidades. O Relatório Final da Comissão fez algumas recomendações que hoje começam a ser implementadas. A recente decisão do Conselho Universitário, depois do debate em 5 reuniões, de mudar o nome do Campus sede, mesmo alcançando grande consenso no meio universitário, sofreu ferrenha oposição das classes patronais de Santa Catarina e de muitos saudosos da Ditadura Militar. Não há como esquecermos destes crimes, fingir que não aconteceram só fertiliza o terreno para que novas iniciativas antidemocráticas tenham curso. Não se trata de revanchismo. Precisamos acertar as contas com o passado para poder caminhar para a construção do futuro.

    A história não para. Os mais recentes atos das forças do passado foi a aliança a uma potência estrangeira para um ataque a nossa soberania, algo muito inédito está em curso. Nem mesmo em 1964 a atuação estadunidense foi tão arrogantemente explícita. Mas estes ataques devem nos ligar um alerta para historiadores. A construção de um mundo multipolar e anticolonial é um novo campo para nossas investigações, na verdade nem tão novo assim, mas intensificado com estas ações. Nossa integração com a América Latina, a África e o sul da Ásia precisa se desdobrar numa visão de mudança de foco, de mudança de paradigmas teóricos e metodológicos, como a desconstrução do eurocentrismo, origem do pensamento colonizado. O pensamento colonial nos levou ao massacre que hoje vemos em Gaza.

    Não se trata apenas de defender a democracia, o que já não é pouco. A busca por uma vida melhor pode ser um caminho de orientação de nossas reflexões. Nosso ofício de historiadores pode reacender a centelha de diferentes experiências da humanidade, podemos estudar sociedades que engendraram diferentes estruturas sociais, com ou sem o Estado, a construção de uma sociedade justa nunca deve abandonar nossos horizontes.

    Historiadores, agora me dirijo a vocês como colegas, tenham em mente a nossa responsabilidade como profissionais de História, nunca deixem que as forças criminosas do passado voltem a governar as mentes da nossa juventude.  A busca de um pensamento crítico e independente deve ser nossa principal missão.

    Desejo uma jornada profissional com alegrias e realizações! Felicidades!


  • Adeodato Ramos

                O último chefe dos rebeldes do Contestado ganhou um podcast magnífico. Trata-se do trabalho da Estação Contestado, da UDESC, grupo coordenado pelo Prof. Rogério Rosa Rodrigues, que reúne informações atualizadas da historiografia, mas também com uma pesquisa própria, encontraram documentos inéditos sobre rastros da vida deste importante chefe sertanejo. Há ali muitas reflexões sobre Memória e História, sobre crítica e cruzamentos de documentos, ou seja, um podcast com 8 capítulos muito bem encadeados, disponíveis no Spotfy e no youtube. Um trabalho a altura da luta e das esperanças dos sertanejos do Contestado e uma justa homenagem ao indivíduo, Adeodato Ramos que, com todas as suas contradições, é um dos principais personagens da História Brasileira.
    Acompanhem no link abaixo:
    https://www.youtube.com/playlist?list=PLdPiOLSBqK9zDtSpbZb0aKB7NdqTvucNE

  • O Município de Florianópolis resolve atacar a Educação


  • As foices de Tremembé


    Quantas mortes serão necessárias para aplacar a necessidade de uma profunda Reforma Agrária no país? Mais uma vez assistimos a uma agressão covarde, na calada da noite, contra famílias oficialmente assentadas pelo INCRA, no Assentamento Olga Benario, há mais de 20 anos. É necessária uma atuação da população em geral, da sociedade civil e das entidades e partidos populares, contra estes massacres e uma política de enfrentamento do latifúndio agressor e seus milicianos e capangas. A foto acima é antiga, de protesto contra outro massacre (o de Eldorado dos Carajás) pois não quero mostrar cemitérios e mortos, mas sim homens e mulheres dispostos a lutar por uma vida e por um país melhores.

  • O Fim do Processo do Bosque do CFH

    Estimadas(os) amigas(os) e colegas.
    Em novembro passado os Desembargadores da turma cível do TRF 4, de Porto Alegre, votaram, por unanimidade, em negar o recurso que o MPF encaminhou contra a sentença em primeira instância, que nos absolveu da acusação de Improbidade Administrativa, em função dos eventos no bosque do CFH, ocorridos em março de 2014. A acusação era contra um grupo de 4 professores (Paulo Pinheiro Machado, Sônia Weidner Maluf, Paulo Marcos Borges Rizzo e Wagner Damasceno) e 1 TAE (Dilton Mota Rufino). Nesta semana fomos informados que o MPF desistiu de recorrer da decisão do TRF4 e que, portanto, nosso processo está concluído com a absolvição nas duas instâncias. O processo todo envolveu uma discussão bem mais vasta que os acontecimentos em si, do dia 25 de março de 14. A autonomia universitária e a responsabilidade pedagógica dos professores em relação aos estudantes foram princípios que ficaram evidentes na decisão. O protagonismo político e o sensacionalismo midiático das polícias e do Ministério Público ficaram expostos (tais como outros abusos praticados no país a partir daquele fatídico ano de 2014). Com esta notícia, queremos informar, em primeira mão, vocês que nos apoiaram desde o início, com notas, manifestações, campanha financeira, além da disposição de muitas(os) a depor em juízo. Vivemos momentos difíceis que foram amenizados por estes constantes gestos de apoio e solidariedade.
    Então, recebam nosso agradecimento e tenham um ótimo final de ano, boas festas e um 2025 com saúde, alegrias e democracia!
    Sônia Weidner Maluf e Paulo Pinheiro Machado

  • Despedida do ano com a turma de História do Brasil Republicano