Discurso aos formandos de História e Filosofia, 2016/1
Queridos Formandos de História e Filosofia
Gostaria de parabeniza-los por este momento especial, de fechamento de um ciclo da vida, de conclusão dos cursos de Filosofia e História, duas áreas de conhecimento gêmeas, que nasceram há mais de 2.500 anos para estudar e entender o mundo, sob diferentes prismas, e que estão presentes em nossa Universidade antes mesmo de sua fundação.
A Faculdade Catarinense de Filosofia, criada em 1951, foi a base inicial destes cursos, que formam profissionais há mais de 60 anos. A homenagem que vocês prestam ao Professor Walter Fernando Piazza representa um justo reconhecimento desta longa trajetória. Fico honrado por me nomearem como Patrono da turma de História, entendendo este ato como uma homenagem a todos os colegas professores(as) do Curso.
Sabemos que mesmo formados vocês deverão continuar com seus estudos, com aperfeiçoamentos e até com a possibilidade de continuar na Universidade para a pós-graduação. Tenham a UFSC como sua casa e retornem sempre que for possível. Apesar de nossas limitações, sempre teremos um corpo de profissionais disponíveis para atendê-los. A Universidade também aprenderá com as suas experiências e demandas .
Vocês estudaram numa Instituição Pública mantida pelo povo brasileiro, façam que sua formação recebida retorne, de alguma maneira, em benefício da população, principalmente das camadas mais pobres e excluídas, que demandam atenção especial. A Universidade é gratuita para os estudantes porque se trata de um investimento para a nação.
Vivemos hoje um momento muito difícil para a educação, em todos os níveis. As políticas privatistas e excludentes, defendidas por setores influentes da grande mídia, do lobby privado dos negociantes da educação e de políticos oportunistas, criaram um ambiente hostil ao desenvolvimento de uma educação livre, crítica e cidadã. É nossa obrigação, tanto como educadores, mas também nas condições de Filósofos e Historiadores, fazer com que nossa experiência de trabalho resulte numa melhoria de vida de nossa população. Isto só pode ser feito se a educação buscar estimular não apenas a transmissão do conhecimento, mas um processo de ensino e aprendizagem que favoreça a autonomia, o pensamento crítico, a inclusão, o respeito à diversidade e a democracia. Penso que a homenagem dos formandos de Filosofia ao professor Selvino José Assmann representa isto: a defesa de uma educação cidadã e inclusiva.
Mas estas visões hoje correm sério risco. Não são poucos os fundamentalistas a empunhar campanha contra o ensino de histórias e culturas indígena e africana, como se fossem apologia de entidades demoníacas. O ataque à laicidade do estado e da educação é uma grande ameaça de nosso tempo. Ameaça não só a ciência como também a própria liberdade religiosa, liberdade não apenas para as religiões cristãs, mas para todos os cultos e inclusive para quem não tem religião.
O projeto de Escola dita “sem partido” parte do princípio de que a atividade docente deve ser alvo de vigilância policial do Estado. Pelos projetos que estão se apresentando nesta área, um delegado de polícia poderá interpretar se um professor está desenvolvendo uma atividade “ideológica” com seus alunos. Não há dúvidas de que os principais alvos são os professores de História e Filosofia, geralmente os principais responsáveis por um debate mais crítico dentro das escolas públicas e particulares. Mas o ataque é contra a educação como um todo. Todos sabemos que não há como separar ideologia de ciência e nem como desvinculá-las da educação. O discurso de que só possui ideologia os que criticam a sociedade é extremamente perigoso. É uma verdadeira apologia do status quo, da manutenção das desigualdades, da reprodução dos preconceitos no meio escolar, ambiente assim construído para a manutenção do desprezo de classe, do racismo, do machismo e da homofobia. Se a educação renunciar a tratar destas questões, viveremos um retrocesso civilizatório sem precedentes. Os defensores desta política agressiva imaginam que os estudantes sejam uma massa amorfa e passiva a disposição da doutrinação externa por professores partidarizados. Não imaginam e nem conhecem a experiência escolar de estudo crítico de aprendizagem mútua entre mestres e estudantes. Ou a República constrói um modelo efetivo e eficaz de Escola voltada para a cidadania, para a criação de sujeitos autônomos, que aprendam a analisar o mundo a partir de suas próprias pernas, ou sucumbiremos a uma escola miserável não só do ponto de vista material, mas pior, miserável nas ambições intelectuais e na limitação à reflexão e à liberdade.
A ressaca civilizatória que estamos vivendo deve ter como origem uma série de problemas não resolvidos que foram deixados pelo caminho nos últimos 30 anos. A insuficiência e as fortes limitações do processo de democratização de nossa sociedade são pontos para reflexão. Não fizemos um verdadeiro ajuste de contas com a Ditadura Militar. Permitimos que torturadores e criminosos que agiram sob a proteção do Estado ficassem impunes. Permitimos que o modelo agrícola exportador baseado na destruição ambiental e na agressão às populações rurais camponesas, indígenas e quilombolas, tivesse uma sobrevida e um revigoramento. Permitimos que a política virasse, cada vez mais, um negócio para atores espertos e oportunistas. Permitimos a manutenção de um Poder Judiciário oligárquico e defensor de privilégios. Evitamos de questionar a concentração monopolizada dos meios de comunicação que ditam o que é verdadeiro e o que é falso. A luta democrática das décadas de 1970 e 1980 teve um horizonte de expectativas cada vez mais limitado. Em algum momento nossa capacidade de organização social e luta por direitos e melhorias foi capturada por um conjunto de amarras e paralisias.
Mas o mundo nunca apresentou condições ideais de vida e trabalho. Precisamos enfrentar as dificuldades e aceitar o desafio de reconstrução da liberdade e da democracia. Resta a nós contar com o que sempre tivemos em nossas mãos. Nossas ferramentas de trabalho são o conhecimento, o respeito e a liberdade. Estas ferramentas são capazes sim de mudar o mundo e construir uma vida melhor. Nunca deixem de lutar pelos seus sonhos! Parabéns! Boa noite!
Prof. Paulo Pinheiro Machado – Diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas
02 de setembro de 2016.