Moção de apoio à Profa. Marlene de Fáveri

14/05/2017 18:51

      Nós, professores, estudantes e pesquisadores da área de História e demais Ciências Humanas, durante a participação no IV Simpósio Nacional do Centenário do Contestado, entre os dias 10 e 13 de maio de 2017, na Universidade do Contestado, Campus Canoinhas (SC), manifestamos nossa veemente indignação e absoluto repúdio ao processo judicial imputado à professora Dra. Marlene de Fáveri, do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
A referida professora enfrenta uma ação judicial, movida por uma ex-orientanda, sob a alegação de constrangimento suscitado pelos temas apresentados e debatidos na Academia. Cabe destacar que a professora Marlene de Fáveri é uma pesquisadora detentora de denso e qualificado trabalho acerca das questões de gênero, reconhecida nacional e internacionalmente.
A autora do processo judicial, apoiada pelo movimento que se autointitula “Escola Sem Partido”, o qual defende a Lei da Mordaça, ou seja, o impedimento à livre prática das atividades docentes e científicas, não objetiva apenas constranger a professora Marlene, mas todos (as) aqueles (as) que defendem a prática da docência e da pesquisa, com amparo na ampla e irrestrita liberdade de expressão e de pensamento.
Consideramos que é nosso dever, enquanto defensores do direito irrestrito à liberdade, nos posicionarmos em defesa da professora Marlene de Fáveri e de todos (as) aqueles (as) submetidos (as) a constrangimentos, perseguições e limitação do direito à livre expressão, seja nos corredores e salas de aula de escolas e universidades, seja nas redes sociais ou nos espaços públicos.
Os tempos obscuros, atualmente vivenciados, em que o autoritarismo e a opressão se apresentam cotidianamente, nos mais distintos espaços, nos impelem a demarcar explicitamente nossa posição em defesa da liberdade de expressão nas atividades intelectual, artística, científica, impondo inexorável resistência a todas as formas de constrangimento ou censura à livre expressão do pensamento.
Canoinhas, SC, 12 de maio de 2017.

°Assinam os membros do Grupo de Investigação sobre o Movimento do Contestado e demais participantes do IV Simpósio Nacional do Centenário do Contestado.
Moção aprovada por aclamação no IV Simpósio Nacional do Centenário do Contestado.

Mensagem de despedida e agradecimento

26/12/2016 14:46

     Neste dia 25 de dezembro termina nosso mandato à frente do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC, iniciado em dezembro de 2012.

     Foi um período de atividade intensa, às vezes muito difícil, no qual procuramos dar os melhores encaminhamentos para os problemas que apareceram ao longo da jornada, mas também em lançar algumas bases e projetos para o futuro próximo.

     Fizemos todo o esforço e agimos com os recursos ao nosso alcance para a consolidação dos cursos novos de Graduação e Pós. A viabilização das condições fundamentais levantadas pelos avaliadores do INEP, com a disposição do Centro em auxiliar o esforço dos Cursos proporcionou um reconhecimento e boa avaliação para todos os cursos novos, apesar de nossas limitações.

     Procuramos e insistimos nas reformas e ampliações dos espaços físicos. Resolvemos o sério risco representado pelo abaulamento das lajes da testada acima da Sala Saramago, com a reforma daquela parte do Bloco C. Os telhados dos blocos A, B, C e D foram restaurados e receberam novas mantas de isolamento. Os pisos de várias salas do bloco B foram reformados. Apesar das limitações da Prefeitura Universitária e dos problemas com empresas contratadas, intensificamos a manutenção da rede elétrica, dos aparelhos de ar e ampliamos a rede de Internet a fio e por wifi. Ampliamos o bicicletário. Prestigiamos a coordenação da Comissão de espaço físico e a decisão do Conselho de Unidade sobre os critérios e meios de distribuição dos espaços que serão abertos nos blocos antigos com as mudanças de várias secretarias, núcleos e laboratórios aos blocos novos, que serão ocupados em breve pelo Centro.

     Criamos a Comissão do Bosque e procuramos melhorar o entorno do Centro, retirando o estacionamento ilegal existente, plantando mudas nativas, promovendo mutirões de limpeza e integrando esse espaço ao projeto de Parque UFSC.

     Diversificamos as atividades do Núcleo de Publicações – NUPPE, além da Revista de Ciências Humanas, cada vez mais conceituada e com recordes de acessos no Portal de Periódicos da UFSC, criando as coleções das Edições do Bosque, com 12 livros e um mapa já publicados.

     Mantivemos forte atividade institucional em todos os órgãos colegiados. Priorizamos o Conselho de Unidade como instância máxima em nosso âmbito, aprovamos o novo Regimento do CFH, e estimulamos a todas as representações a manutenção de um diálogo constante entre as Câmaras e o Conselho Universitário e os colegiados do Centro. Foi através do Conselho de Unidade que implementamos o encaminhamento de debates e consulta em assembleia geral sobre Empresas Juniores.

     No Conselho Universitário tivemos participação importante na discussão e definição das novas Resoluções sobre Concursos, Titulares de Carreira, Pesquisa, Viagens de Estudo, Extensão, Monitorias, Ações Afirmativas e Descentralização. Em todos estes momentos defendemos a prevalência de critérios acadêmicos, a inclusão, a democratização e a impessoalidade. Nossa posição sempre era fortalecida por ser sustentada em exame, análise e debate anteriores destas minutas, realizadas pelo nosso Conselho de Unidade.

     Desde o início da gestão procuramos uma aproximação e uma integração acadêmica com o MArquE, nosso Museu de Arqueologia e Etnografia Oswaldo Rodrigues Cabral. Depois de muito esforço do CFH e do próprio Museu, isso já é uma realidade consolidada. O Museu possui um plano museológico, um regimento e um órgão colegiado As exposições voltaram a acontecer, a pesquisa arqueológica se intensifica e os cursos de graduação do CFH já participam em várias atividades envolvendo docentes e estudantes.

     Também nos esforçamos, juntamente com a Comissão de implantação do Centro de Pesquisa e Documentação da UFSC, para a viabilização, junto à administração central, dos recursos necessários para a realização das obras de seu futuro prédio, além da definição de um regimento, a sensibilização da UFSC para a importância desse projeto e o mapeamento dos acervos documentais existentes na Universidade.

     Agradecemos pelo apoio firme e constante que recebemos de toda a comunidade do Centro no episódio de violação da autonomia universitária, em 25 de março de 2014. Aquele episódio nos revelou o início do estado de abuso das forças do Ministério Público e da Polícia Federal.

     Ao longo da gestão, procuramos uma relação direta com os técnico-administrativos, ouvindo suas necessidades e demandas e conciliando as necessidades do serviço com os perfis individuais e as preferências dos profissionais. Apesar de contar com um número cada vez menor de técnicos, sugerimos para o futuro próximo uma integração de secretarias, o que poderá otimizar as demandas do público e as necessidades de capacitação e melhoria do serviço.

     Em relação aos estudantes, procuramos uma relação direta e horizontal, buscando atender às suas demandas, promovendo e apoiando as Semanas de Integração, as Semanas dos CAs, e abrindo uma interlocução quando dos grandes movimentos estudantis, tal como ocorreu com a ocupação do CFH em novembro deste ano. O debate com o movimento estudantil foi importante para lembrar-nos que estamos numa Instituição que pulsa, composta por milhares de jovens que possuem suas linguagens e seus horizontes geracionais, que precisam ser compreendidos e considerados no âmbito da vida universitária

     Desejamos a todos(as) boas festas e um 2017 com saúde, realizações e alegrias.

                    Paulo Pinheiro Machado e Sônia Weidner Maluf

Carta de Alforria do Camponês

09/12/2016 10:23

“Tu és com os teus irmãos quase todo o Brasil. És tu quem mata a nossa fome. E morre de fome. És tu quem nos veste. E vive de tanga. Dás o soldado para defender a Pátria. E a Pátria te esquece. Dás o capanga para o latifúndio. E o capanga te esmaga. Dás a esmola para a igreja. E a igreja te pede resignação em nome de Cristo. Muitos são os caminhos que te levarão à liberdade. Liberdade quer dizer terra. Quer dizer pão. Quer dizer casa. Quer dizer remédio. Quer dizer escola. Quer dizer paz. Eu te apontarei esses caminhos. Mas eu te digo e repito: não adiante a viagem se tu fores sozinho. Convida seu irmão sem terra ou de pouca terra. E pede que ele convide outro. No começo serão dois. Depois, dez. Depois, cem. Depois, mil. E no fim serão todos. Marchando unidos. Como unidos vão à feira, à festa, à missa, ao culto, ao enterro, à eleição. Digo e repito: a união é a mãe da liberdade. São muitos os caminhos por onde poderás viajar com os teus irmãos. (…)Eu te explicarei tudo isso trocando em miudinho. Tenho a esperança de acender uma luz no teu espírito. De espantar o morcego que mora dentro dele chupando a tua coragem. Esse morcego é o medo. Acesa a luz que espanta o medo, essa luz, amanhã, crescerá como uma fogueira. E depois como um incêndio.”

Francisco Julião, 1961.

Uma jornada de aprendizagem

02/12/2016 00:09

              O Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC esteve, entre os dias 4 e 29 de novembro, sob ocupação estudantil. Estou no meio universitário como estudante e professor desde 1979 e nunca tinha visto um movimento como este. Já vi e participei de dezenas de greves, ocupações de RUs e Reitorias, mas nunca tinha visto algo parecido com o que aconteceu. Os estudantes estavam inspirados pelo movimento nacional de resistência às medidas de ataque que o governo federal implementou contra a educação e o país. O movimento começou muito forte, com uma assembleia de mais de 500 participantes que deliberou pela greve e ocupação com o bloqueio do prédio de aulas e de toda a parte administrativa que incluía salas de professores, secretarias, Laboratórios e Núcleos. O clima era um pouco catártico, com fortes demonstrações de voluntarismo, desprendimento e idealismo, com grande capacidade de auto sacrifício e de compartilhamento, por quase 1 mês, de uma alimentação precária, sono difícil, turnos de revezamento, banhos frios e muitas rodas de debate, aulões e assembleias. Desde o primeiro dia os estudantes organizaram-se em diversas comissões, que tratavam dos mais diferentes aspectos como segurança, alimentação, limpeza, atividades culturais, etc. Uma reunião diária era momento para definições e pequenas deliberações, entre uma assembleia e outra. As estruturas tradicionais do movimento estudantil como os Centros Acadêmicos e o DCE não tinham autoridade sobre o movimento, que apresentou forte participação de estudantes de primeiros semestres dos 10 cursos de graduação que acontecem no CFH.

              Nos primeiros dias muitos professores e técnicos, mesmo pessoas que apoiam o movimento dos estudantes, sentiram-se surpreendidos e, de certa forma, incomodados pela atitude radical dos estudantes. É fácil compreender esta reação automática de quem é barrado por tentar retomar sua rotina de trabalho. Os professores eram escoltados por estudantes até suas salas e só entravam nelas pontualmente, para pegar algum documento ou material. Muitos vieram procurar a Direção do Centro para pedir “medidas enérgicas” que garantissem o “direito de ir e vir”. Logo entenderam que não se tratava de buscar medidas de força, mas sim de procurar entender e apoiar o movimento dos estudantes que, em última instância, não era apenas “dos estudantes” já que eles estavam lutando pela educação como um todo. Eles lutaram por todos nós. Durante o ano o país ficou assistindo bestializado um golpe político que rasgou a Constituição e anulou 54 milhões de votos e as pessoas ainda se perguntavam se era ou não legítima uma resistência a tudo que tem acontecido. Entregaram o pré-sal, desmontaram a LDB e agora desvinculam receitas da Educação e Saúde (em breve, detruição da previdência e desmonte da CLT).

               Dentro do prédio ocupado os estudantes foram construindo uma relação horizontal com os trabalhadores terceirizados da limpeza, segurança e portaria. Funcionários da limpeza mostravam aos estudantes como limpar corredores, salas e banheiros e eles mesmos assumiram a maior parte destas tarefas. O prédio também teve alguns benefícios, como torneiras e lâmpadas trocadas, cuidado com o patrimônio e até a pintura final das paredes para tirar os grafites. Francamente é discutível a eficácia deste movimento para barrar a PEC 241, mas ainda é muito cedo para avaliar os efeitos a médio e longo prazos desta jornada. Trata-se de uma nova cultura política, ainda não muito bem definida, que defende um protagonismo direto, uma atitude niveladora e um movimento que não procura o domínio de estruturas, mas sim uma profunda reflexão sobre nossa vida e nosso trabalho. Por muitos anos ouvi em assembleias pessoas dizendo que era necessário se inventar formas alternativas de luta, que nossas greves tradicionais estavam desgastadas e haviam caído no vazio. Bem, há algo de novo aparecendo. Bora lá aprender.

Discurso aos formandos de História e Filosofia, 2016/1

08/09/2016 11:13

Queridos Formandos de História e Filosofia

Gostaria de parabeniza-los por este momento especial, de fechamento de um ciclo da vida, de conclusão dos cursos de Filosofia e História, duas áreas de conhecimento gêmeas, que nasceram há mais de 2.500 anos para estudar e entender o mundo, sob diferentes prismas, e que estão presentes em nossa Universidade antes mesmo de sua fundação.

A Faculdade Catarinense de Filosofia, criada em 1951, foi a base inicial destes cursos, que formam profissionais há mais de 60 anos. A homenagem que vocês prestam ao Professor Walter Fernando Piazza representa um justo reconhecimento desta longa trajetória. Fico honrado por me nomearem como Patrono da turma de História, entendendo este ato como uma homenagem a todos os colegas professores(as) do Curso.

Sabemos que mesmo formados vocês deverão continuar com seus estudos, com aperfeiçoamentos e até com a possibilidade de continuar na Universidade para a pós-graduação. Tenham a UFSC como sua casa e retornem sempre que for possível. Apesar de nossas limitações, sempre teremos um corpo de profissionais disponíveis para atendê-los. A Universidade também aprenderá com as suas experiências e demandas .

Vocês estudaram numa Instituição Pública mantida pelo povo brasileiro, façam que sua formação recebida retorne, de alguma maneira, em benefício da população, principalmente das camadas mais pobres e excluídas, que demandam atenção especial. A Universidade é gratuita para os estudantes porque se trata de um investimento para a nação.

Vivemos hoje um momento muito difícil para a educação, em todos os níveis. As políticas privatistas e excludentes, defendidas por setores influentes da grande mídia, do lobby privado dos negociantes da educação e de políticos oportunistas, criaram um ambiente hostil ao desenvolvimento de uma educação livre, crítica e cidadã. É nossa obrigação, tanto como educadores, mas também nas condições de Filósofos e Historiadores, fazer com que nossa experiência de trabalho resulte numa melhoria de vida de nossa população. Isto só pode ser feito se a educação buscar estimular não apenas a transmissão do conhecimento, mas um processo de ensino e aprendizagem que favoreça a autonomia, o pensamento crítico, a inclusão, o respeito à diversidade e a democracia. Penso que a homenagem dos formandos de Filosofia ao professor Selvino José Assmann representa isto: a defesa de uma educação cidadã e inclusiva.

     Mas estas visões hoje correm sério risco. Não são poucos os fundamentalistas a empunhar campanha contra o ensino de histórias e culturas indígena e africana, como se fossem apologia de entidades demoníacas. O ataque à laicidade do estado e da educação é uma grande ameaça de nosso tempo. Ameaça não só a ciência como também a própria liberdade religiosa, liberdade não apenas para as religiões cristãs, mas para todos os cultos e inclusive para quem não tem religião.

        O projeto de Escola  dita “sem partido” parte do princípio de que a atividade docente deve ser alvo de vigilância policial do Estado. Pelos projetos que estão se apresentando nesta área, um delegado de polícia poderá interpretar se um professor está desenvolvendo uma atividade “ideológica” com seus alunos. Não há dúvidas de que os principais alvos são os professores de História e Filosofia, geralmente os principais responsáveis por um debate mais crítico dentro das escolas públicas e particulares. Mas o ataque é contra a educação como um todo. Todos sabemos que não há como separar ideologia de ciência e nem como desvinculá-las da educação. O discurso de que só possui ideologia os que criticam a sociedade é extremamente perigoso. É uma verdadeira apologia do status quo, da manutenção das desigualdades, da reprodução dos preconceitos no meio escolar, ambiente assim construído para a manutenção do desprezo de classe, do racismo, do machismo e da homofobia. Se a educação renunciar a tratar destas questões, viveremos um retrocesso civilizatório sem precedentes. Os defensores desta política agressiva imaginam que os estudantes sejam uma massa amorfa e passiva a disposição da doutrinação externa por professores partidarizados. Não imaginam e nem conhecem a experiência escolar de estudo crítico de aprendizagem mútua entre mestres e estudantes. Ou a República constrói um modelo efetivo e eficaz de Escola voltada para a cidadania, para a criação de sujeitos autônomos, que aprendam a analisar o mundo a partir de suas próprias pernas, ou sucumbiremos a uma escola miserável não só do ponto de vista material, mas pior,  miserável nas ambições intelectuais e na limitação à reflexão e à liberdade.

        A ressaca civilizatória que estamos vivendo deve ter como origem uma série de problemas não resolvidos que foram deixados pelo caminho nos últimos 30 anos. A insuficiência e as fortes limitações do processo de democratização de nossa sociedade são pontos para reflexão. Não fizemos um verdadeiro ajuste de contas com a Ditadura Militar. Permitimos que torturadores e criminosos que agiram sob a proteção do Estado ficassem impunes. Permitimos que o modelo agrícola exportador baseado na destruição ambiental e na agressão às populações rurais camponesas, indígenas e quilombolas, tivesse uma sobrevida e um revigoramento. Permitimos que a política virasse, cada vez mais, um negócio para atores espertos e oportunistas. Permitimos a manutenção de um Poder Judiciário oligárquico e defensor de privilégios. Evitamos de questionar a concentração monopolizada dos meios de comunicação que ditam o que é verdadeiro e o que é falso. A luta democrática das décadas de 1970 e 1980 teve um horizonte de expectativas cada vez mais limitado. Em algum momento nossa capacidade de organização social e luta por direitos e melhorias foi capturada por um conjunto de amarras e paralisias.

         Mas o mundo nunca apresentou condições ideais de vida e trabalho. Precisamos enfrentar as dificuldades e aceitar o desafio de reconstrução da liberdade e da democracia. Resta a nós contar com o que sempre tivemos em nossas mãos. Nossas ferramentas de trabalho são o conhecimento, o respeito e a liberdade. Estas ferramentas são capazes sim de mudar o mundo e construir uma vida melhor. Nunca deixem de lutar pelos seus sonhos! Parabéns! Boa noite!

                Prof. Paulo Pinheiro Machado – Diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas

                02 de setembro de 2016.

Para a Pós-Graduação em História – Movimentos Sociais e Experiências – semestre 2016/2

04/08/2016 18:47

Departamento de História – Programa de Pós-Graduação em História

PLANO DE ENSINO

 

Nome da disciplina: Movimentos Sociais e Experiências.                            Código: HST 346000

Professor responsável: Paulo Pinheiro Machado.                                             Semestre: 2016/2

Horário: 6ª feiras, das 14:00 às 17:30h.                                                      Local: Sala CFH 335

 

Ementa: Analisar, discutir e avaliar as diferentes abordagens historiográficas – e suas implicações teóricas e metodológicas – sobre a história social, o estudo de movimentos sociais rurais e/ou urbanos, o conceito de cultura e suas apropriações na história social do trabalho e nas instituições e organizações formais e informais de trabalhadores.

 

Avaliação: A avaliação dos alunos será realizada a partir da apresentação de textos e participação em sala de aula (30%) e entrega de trabalho monográfico até dia 20 de dezembro (70%).

 

 

Programação das atividades:

 

Dia 12 de agosto.

 

Apresentação do plano de ensino e distribuição das leituras

 

1 – Movimentos sociais e História Social do trabalho.

 

Dia 19 de agosto.

 

RUDÉ, George . A multidão na História. Estudos dos movimentos Populares na França e na Inglaterra 1730-1848. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1991.  Capítulos I, II, III, IV, V, VI, VII e VIII, pp 19 a 145

 

Dia 26 de agosto.

 

THOMPSON, Edward P. Costumes em comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Cia das Letras. 1998.  Introdução pp. 13-24; Cap. 3 Costume, Lei e Direito Comum e Cap. 4 A economia moral da multidão inglesa no século XVIII pp. 86- 202.

 

Dia 02 de setembro.

 

SAFATLE, Vladimir P. Reler Marx Hoje. Mimeo. 2016. Capítulos 1 a 6. pp 01- 59

 

Dia 09 de setembro:

Texto para Discussão:

 

SAFATLE, Vladimir P. Reler Marx Hoje. Mimeo. 2016. Capítulos 7 a 14. pp 60-122.

 

 

2. Escravos e Livres no Brasil

 

Dia 16 de setembro:

 

NEGRO, Antônio Luigi e GOMES, Flávio. “Além de senzalas e fábricas uma história social do trabalho”. In Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1, 2006, pp. 217-240.

 

LINDEN, Marcel van der. “Rumo a uma nova conceituação histórica da classe trabalhadora mundial” In HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.2, 2005,  pp..11-40.

 

 

Dia 23 de setembro:

 

YABETA, Daniela e GOMES, Flávio. “Memória, Cidadania e Direitos de Comunidades Remanescentes (em torno de um documento da História dos quilombolas da Marambaia)” In Afro-Ásia, n. 47, 2013, pp.79-117.

 

MAMIGONIAN, Beatriz. “José Majojo e Francisco Moçambique, marinheiros das rotas atlânticas: notas sobre a reconstituição de trajetórias da era da abolição.” Topoi, v. 11, n. 20, jan.-jun. 2010, pp. 75-91.

 

 

Dia 30 de setembro.

 

SOUZA, Robério S. Trabalhadores dos trilhos: imigrantes e nacionais livres, libertos e escravos na construção da primeira ferrovia baiana (1858-1863). Campinas: Ed. UNICAMP, 2015. Livro completo. Parte 1. (Prefácio, Introdução, Caps. 1, 2 e 3) pp. 15-157.

 

Dia 07 de outubro.

 

SOUZA, Robério S. Trabalhadores dos trilhos  Parte 2 (Caps. 4, 5 e conclusão). pp. 159-256.

 

3. Movimentos Sociais no Brasil Contemporâneo

 

Dia 14 de outubro:

 

DUARTE, Adriano Luiz. “Em busca de um lugar no mundo”: movimentos sociais e política na cidade de São Paulo nas décadas de 1940 e 50. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 21, nº 42, julho-dezembro de 2008, p. 195-219.

 

FORTES, Alexandre. “O Estado Novo e os Trabalhadores: a construção de um corporativismo Latino-Americano” Locus: revista de história, Juiz de Fora, v. 13, n. 2, 2007,  pp. 61-86.

 

Dia 21 de outubro:

 

FRENCH, John . Afogados em Leis. A CLT e a cultura política dos trabalhadores brasileiros. São Paulo: Ed. Perseu Abramo. 2001. (livro inteiro)

 

 

Dia 28 de outubro:

 

FRENCH, John. Afogados em LeisParte 2.

 

 

Dia 04 de novembro

 

MATTOS, Marcelo Badaró . “O Governo João Goulart: novos rumos da produção historiográfica” Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 28, nº 55, 2008, pp. 245-263

 

MOTTA, Márcia Maria Menendes e ESTEVES, Carlos Leandro. “ Ligas Camponesas: história de uma luta desconhecida.”  MST em Dados. 2009. Mimeo. Texto completo, 19p.

 

Dia 11 de novembro.

 

WELCH, Clifford Andrew. “Os com-terra e os sem-terra de São Paulo: retratos de uma relação em transição (1946-1996).” In  FERNANDES, Bernardo Mançano; MEDEIROS, Leonilde Sérvolo de; PAULILO, Maria Ignez (orgs.). Lutas Camponesas Contemporâneas: condições, dilemas e conquistas. O Campesinato como sujeito político nas décadas de 1950 a 1980. São Paulo/Brasília: Ed. UNESP/NEAB, 2009, pp. 139-170.

 

REIS, Maria José. “O movimento dos atingidos por barragens: atores, estratégias de luta e conquistas. In  FERNANDES, Bernardo Mançano; MEDEIROS, Leonilde Sérvolo de; PAULILO, Maria Ignez (orgs.). Lutas Camponesas Contemporâneas: condições, dilemas e conquistas. O Campesinato como sujeito político nas décadas de 1950 a 1980. São Paulo/Brasília: Ed. UNESP/NEAB, 2009, pp. 265-286.

 

 

Dias 17 e 24 de novembro: não haverá aulas da disciplina em função de Simpósio de História da Ciência e Seminário Internacional dos Mundos do Trabalho, em Manaus.

 

Dia 02 de dezembro

 

SANTOS, Izabel; WRIGHT, Sônia; SILVA, Maria J.; SILVA, Uilma; PAULA, Edvânia de (orgs.). Mulheres construindo poder: Um olhar sobre como as mulheres populares e diversas do Nordeste do Brasil transformam o poder. Quito/Equador: OXFAM/AECID, 2013. Livro completo, 172 pp.

 

Avaliação da disciplina.

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Data final para entrega dos trabalhos monográficos: 20 de dezembro.

Nota em defesa da liberdade do trabalho científico

17/07/2016 09:42

          O Conselho de Unidade do Centro de Filosofia e Ciências Humanas vem manifestar publicamente sua mais grave preocupação com as práticas da CPI da FUNAI e do INCRA, constituída a partir de outubro de 2015.
       O requerimento original que criou a Comissão já levantava a acusação de fraude contra profissionais provenientes de Universidades, sendo a UFSC nominalmente citada. Um requerimento de autoria do Deputado Valdir Colato, aprovado por esta comissão em 6 de julho do presente ano, encaminha solicitação a Polícia Federal para a abertura de investigação visando apuração dos indícios de falsidade, presuntivos de organização criminosa e lesão ao erário, sem afastar a eventual ocorrência de crimes conexos contra antropólogos e demais profissionais que participaram da elaboração do laudo da Terra Indígena do Morro dos Cavalos, sendo que da UFSC são nominalmente citados Maria Dorothea Post Darella, Aldo Litaif (servidores que durante anos foram responsáveis pelo setor de Etnologia Indígena do MArquE) e Gelci Coelho (ex- Diretor do MArquE, aposentado). Na semana anterior a este requerimento um longo e circunstanciado documento foi enviado pela UFSC para esta CPI, com toda a explicação sobre os procedimentos metodológicos, relatórios, laudos e até filmagens na região do Morro dos Cavalos, todo o acervo de estudos que a UFSC vem realizando para aquela comunidade e aquele território há mais de 30 anos, com a explicitação dos procedimentos metodológicos, das fontes e acervos, dos testemunhos e da longa relação com o Ministério Público Federal, a FUNAI e demais órgãos governamentais. Nada disso foi examinado pela CPI. O documento enviado à Polícia Federal não anexava nem citava a resposta esclarecedora da UFSC. Isto demonstra uma prática mais ligada à acusação sem provas do que a uma verdadeira investigação.
          No mesmo dia 6 de julho outro requerimento, número 292/16, de autoria do Deputado Nilson Leitão, sem maioria de votos e com conteúdo não divulgado, acabou por aprovar a quebra de sigilo fiscal e bancário de Instituições e indivíduos que defendem as causas indígenas e quilombolas. Nem mesmo os parlamentares da CPI tiveram acesso ao texto deste Requerimento, sendo que o autor admite que a ABA e outras entidades e indivíduos estão listados.
            Estas iniciativas, além de deturpar as práticas legítimas de investigação parlamentar, significam formas efetivas de intimidação do trabalho de profissionais e de estudantes graduandos e pós-graduandos da área de Antropologia e das Ciências Humanas em geral, um verdadeiro ataque à ciência e à Universidade. Igualmente preocupante é o ânimo da maioria dos parlamentares desta CPI que tem por finalidade última a revogação dos direitos territoriais que as comunidades indígenas e quilombolas conquistaram na Constituição de 1988.

Carta aberta da neta de Marc Bloch ao jornal O Estado de S. Paulo

12/07/2016 12:43

      Meu nome é Suzette Bloch. Sou jornalista e, além disso, neta e detentora dos direitos autorais do historiador e resistente Marc Bloch.
     Eu li seu editorial do dia 14 de junho sobre o manifesto dos Historiadores pela democracia. Ele me deixou estupefata e indignada. Seu jornal utiliza o nome de meu avô para justificar um engajamento ideológico totalmente oposto ao que ele foi, um erudito que revolucionou a ciência histórica e um cidadão a tal ponto engajado na defesa das liberdades e da democracia que perdeu a vida, fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944.
     O jornal recorre ao nome de Marc Bloch para responder aos historiadores brasileiros que se posicionaram contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. “Pensamento único, historiadores muito bem posicionados na academia, a serviço de partidos, bajuladores do poder etc.”; seu editorial não argumenta, apenas denigre. Eis porque tiveram necessidade de se valer de uma obra de alcance universal e da vida irretocável do meu avô para tonar virtuoso seu apoio ao golpe de Estado.
     Condeno toda instrumentalização política de Marc Bloch. Para além do homem público, ele é o avô que eu não conheci, mas que nos deixou como herança a memória de uma família para a qual a liberdade representa a essência de toda humanidade. Em todo lugar, a cada instante, no Brasil inclusive. Vocês omitiram aos seus leitores o fato de que o filho mais velho de Marc Bloch, meu tio Étienne, que libertou Paris junto com a 2ª. Divisão Blindada do General Leclerc, foi o presidente do comitê de solidariedade França-Brasil nos anos 1970. Este comitê auxiliou as vítimas do regime civil-militar iniciado com o golpe de 1964 e manteve-se na luta pelo retorno da democracia brasileira. Poderiam ainda ter explicado aos seus leitores que a neta de Marc Bloch se casou com um brasileiro, Hamilton Lopes dos Santos, refugiado político do Brasil e depois do Chile, tendo chegado na França em 1973 em razão do golpe de Pinochet. Poderiam, enfim, ter anunciado que dois dos bisnetos de Marc Bloch, Iara e Marc-Louis, são franco-brasileiros.
     Conseguem imaginar a reação de meu avô diante do espetáculo dos deputados que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff em nome de suas esposas, de seus filhos, de Deus ou de um torturador? Imaginem ainda sua reação diante de um presidente interino que formou um governo exclusivamente de homens e cuja primeira medida foi suprimir o Ministério da Cultura e o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos, suspendendo e reduzindo diversos programas sociais, como o Minha casa, minha vida. Ministros empossados são investigados por corrupção e alguns foram exonerados após a divulgação de conversas nas quais admitiam que o afastamento de Dilma não tinha senão um objetivo: parar as investigações contra a corrupção. Imaginem a reação de meu avô!
     O presidente francês, François Hollande, foi eleito com 51,9% dos votos em 2012 e sua popularidade não passava de 16% em maio. No entanto, seus adversários políticos sequer sonharam em contestar sua legitimidade conquistada nas urnas, apenas estão se preparando para as próximas eleições, como em toda democracia digna deste nome. Não pode haver democracia sem o respeito às eleições. Contudo, um grande jornal como este aplaude o confisco do voto popular.Meu nome é Suzette Bloch. Sou jornalista e, além disso, neta e detentora dos direitos autorais do historiador e resistente Marc Bloch.
     Eu li seu editorial do dia 14 de junho sobre o manifesto dos Historiadores pela democracia. Ele me deixou estupefata e indignada. Seu jornal utiliza o nome de meu avô para justificar um engajamento ideológico totalmente oposto ao que ele foi, um erudito que revolucionou a ciência histórica e um cidadão a tal ponto engajado na defesa das liberdades e da democracia que perdeu a vida, fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944.
     O jornal recorre ao nome de Marc Bloch para responder aos historiadores brasileiros que se posicionaram contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. “Pensamento único, historiadores muito bem posicionados na academia, a serviço de partidos, bajuladores do poder etc.”; seu editorial não argumenta, apenas denigre. Eis porque tiveram necessidade de se valer de uma obra de alcance universal e da vida irretocável do meu avô para tonar virtuoso seu apoio ao golpe de Estado.
     Condeno toda instrumentalização política de Marc Bloch. Para além do homem público, ele é o avô que eu não conheci, mas que nos deixou como herança a memória de uma família para a qual a liberdade representa a essência de toda humanidade. Em todo lugar, a cada instante, no Brasil inclusive. Vocês omitiram aos seus leitores o fato de que o filho mais velho de Marc Bloch, meu tio Étienne, que libertou Paris junto com a 2ª. Divisão Blindada do General Leclerc, foi o presidente do comitê de solidariedade França-Brasil nos anos 1970. Este comitê auxiliou as vítimas do regime civil-militar iniciado com o golpe de 1964 e manteve-se na luta pelo retorno da democracia brasileira. Poderiam ainda ter explicado aos seus leitores que a neta de Marc Bloch se casou com um brasileiro, Hamilton Lopes dos Santos, refugiado político do Brasil e depois do Chile, tendo chegado na França em 1973 em razão do golpe de Pinochet. Poderiam, enfim, ter anunciado que dois dos bisnetos de Marc Bloch, Iara e Marc-Louis, são franco-brasileiros.
     Conseguem imaginar a reação de meu avô diante do espetáculo dos deputados que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff em nome de suas esposas, de seus filhos, de Deus ou de um torturador? Imaginem ainda sua reação diante de um presidente interino que formou um governo exclusivamente de homens e cuja primeira medida foi suprimir o Ministério da Cultura e o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos, suspendendo e reduzindo diversos programas sociais, como o Minha casa, minha vida. Ministros empossados são investigados por corrupção e alguns foram exonerados após a divulgação de conversas nas quais admitiam que o afastamento de Dilma não tinha senão um objetivo: parar as investigações contra a corrupção. Imaginem a reação de meu avô!
     O presidente francês, François Hollande, foi eleito com 51,9% dos votos em 2012 e sua popularidade não passava de 16% em maio. No entanto, seus adversários políticos sequer sonharam em contestar sua legitimidade conquistada nas urnas, apenas estão se preparando para as próximas eleições, como em toda democracia digna deste nome. Não pode haver democracia sem o respeito às eleições. Contudo, um grande jornal como este aplaude o confisco do voto popular.

Apertem os cintos, o piloto sumiu (Vladimir Safatle, Folha de S. Paulo, 3/6/2016)

03/06/2016 18:33

É certo que mesmo o mais entusiasta apoiador do golpe oligárquico perpetrado no Brasil não imaginava uma sequência tão desastrada como a que estamos a ver. A narrativa hegemônica antes do processo de impeachment de Dilma Rousseff era que, afastada a presidente, o dólar cairia, a bolsa subiria, a sociedade se reunificaria e voltaríamos a uma certa normalidade.

Mesmo os que denunciavam a manobra política afirmavam que entraríamos em um conchavo macabro entre a classe política, a imprensa e o judiciário para a criação de uma pacificação artificial do cenário político nacional.

No entanto, o que aconteceu foi outra coisa. Nestes primeiros 20 dias, o governo interino foi diariamente bombardeado por vazamentos de gravações que provocaram a queda de dois ministros em menos de um mês, setores da imprensa não deixaram de reverberar os arcaísmos e mazelas dos novos ocupantes do poder, minando a popularidade de um governo que começou em baixa. A quantidade de medidas anunciadas e revogadas em menos de um dia demonstra a profunda fragilidade do arranjo governista e seu programa.

Uma das formas de interpretar tal situação passa por compreender de outra forma golpes políticos como esse que o Brasil conheceu.

Normalmente, imaginamos que a queda de um grupo de poder e a ascensão de outro é fruto de um projeto claramente concebido que recebe a anuência de vários atores políticos com interesses em comum dispostos a se submeter a um comando central. Teria sido assim, por exemplo, com a ditadura militar, na qual setores do empresariado nacional, do latifúndio, da igreja conservadora e da imprensa organizaram seus interesses em comum submetendo-se ao comando militar, que foi rapidamente impondo sua hegemonia de fato.

No entanto, lembremos aqui da teoria presente em um dos mais impressionantes estudos sobre o estado nazista, a saber, “Behemoth: A Estrutura e a Prática do Nacional-Socialismo”, de Franz Neumann.

Uma das principais teses de Neumann, companheiro de rota da Escola de Frankfurt, consiste em afirmar que o Estado nazista não era uma totalidade orgânica e homogênea. Antes, ele era composto de, ao menos, quatro grupos (o partido, o Exército, os industriais e a burocracia estatal) que se digladiavam entre si constituindo estruturas de poder paralelas que entravam continuamente em choque.

O Estado não se desagregava apenas porque existia um “mediador universal” reconhecido por todos (no caso, o Führer) que decidia os conflitos internos quando necessário. Agora, imagine uma situação como essa sem a figura do mediador universal. Você chegará assim ao Brasil atual, fruto de um impressionante golpe sem comando.

Cinco grupos tomaram a frente do processo de derrubada do governo Dilma. Primeiro, a casta política, que resolveu sacrificar seu sócio mais novo (o PT) para tentar, como disse singelamente o senhor Romero Jucá, “estancar a sangria”.

Segundo, o poder Judiciário, que, diante da imobilidade do Executivo e do Legislativo, paulatinamente foi alçado ao centro do processo decisório nacional, ganhando um protagonismo e autonomia nunca visto. Não foram poucos os que denunciaram que o Brasil caminha para uma certa condição de República de juízes.

Terceiro, setores hegemônicos da imprensa, que tem sua pauta liberal-conservadora própria.

Quarto, a oligarquia financeira, único setor da economia nacional capaz de organizar o comando da economia a partir de seus próprios interesses. Por fim, a igreja evangélica conservadora, cuja influência na política brasileira é fruto de trabalho ideológico de longo fôlego no interior da dita “nova classe média”.

Todos esses atores têm agendas próprias, não necessariamente convergentes. A única coisa que eles têm em comum é o mesmo inimigo externo, a saber, a esquerda no poder. O que os une é a violência contra o mesmo inimigo, que precisará continuar como tal. O que veremos agora será, pois, tais atores se digladiando entre si para impor sua hegemonia.

Policiais prendendo banqueiros, a imprensa enquadrando membros da casta política, evangélicos pressionando o governo para suas pautas fundamentalistas: esses movimentos são apenas um jogo de força no interior de um golpe sem comando e de um país à deriva. Esta é uma das versões possíveis do vazio no poder.